A prévia da eleição presidencial escancarou um paradoxo da centro-direita: há votos disponíveis, mas falta consenso. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acelera a pré-campanha e organiza alianças regionais, a oposição patina entre candidaturas que disputam o mesmo espaço — e se anulam. A avaliação foi feita no Ponto de Vista, em conversa mediada por Marcela Rahal com o editor de política José Benedito da Silva e colunista de VEJA e especialista em opinião pública Mauro Paulino.
Para Paulino, o ponto de partida é estrutural. O eleitorado brasileiro se organiza em três grandes blocos: esquerda, direita e um centro volátil, que decide o voto mais tarde e costuma definir a eleição. “Esse terço central é o fiel da balança”, resume. É justamente por ele que governadores e líderes da centro-direita tentam falar — com resultados ainda incertos.
O Brasil vota em blocos — e quem decide no fim?
A existência desse eleitorado intermediário ajuda a explicar por que discursos muito ideológicos têm alcance limitado. Segundo Paulino, o centro não rejeita a polarização por princípio, mas busca pragmatismo, previsibilidade e resultados. “Esse grupo tende a pender para um dos lados só no fim”, diz. É o público que decide segundo turno — e, por isso, o mais cobiçado.
Nesse cenário, nomes com perfil de gestão e menor rejeição ganham vantagem comparativa. Mas a disputa interna impede a consolidação de uma mensagem única, enquanto o governo observa.
Quem fala com o eleitor da segurança pública?
Paulino aponta o governador Ronaldo Caiado como exemplo de liderança com discurso assertivo, especialmente na área de segurança pública, capaz de dialogar com parte desse centro. Ainda assim, a tendência dominante permanece: de um lado, Flávio Bolsonaro como candidato mais identificado à direita; de outro, Lula, reposicionado como centro-esquerda.
A equação, porém, não se resolve apenas por identidade ideológica. Ela passa pela rejeição — e pela capacidade de formar alianças.
Flávio está consolidado — mas até onde consegue ir?
Para José Benedito, a candidatura de Flávio Bolsonaro “está consolidada” no papel: os números cresceram e o senador mostrou competitividade, inclusive em simulações de segundo turno. O problema é o teto. “Ele carrega muitos calcanhares de Aquiles”, afirma, citando rejeição elevada, discurso radicalizado e um passivo de controvérsias que dificultam alianças e a expansão do eleitorado.
Esse conjunto amplia o “teto de vidro” da candidatura. O sobrenome ajuda a largar na frente, mas pesa quando a disputa exige ampliar a base — sobretudo entre eleitores de centro e partidos pragmáticos.
Por que Tarcísio virou a ‘esfinge’ da eleição?
É aí que surge a figura do governador Tarcísio de Freitas. Para José Benedito, a “grande notícia” da pré-eleição é a indefinição de Tarcísio. Publicamente, ele reforça a reeleição em São Paulo; nos bastidores, cresce a pressão para que encare a disputa nacional.
O xadrez do Centrão e a etratégia de Lula
Segundo José Benedito, os principais partidos do Centrão virão divididos para a eleição. O PSD tem três ministérios e está com Lula na Bahia, no Rio com Eduardo Paes e em outros estados. O Republicanos também: em Pernambuco, o ministro Silvio Costa Filho quer ser candidato ao Senado com o apoio de Lula. O Tarcísio era considerado o candidato com maior potencial por ser capaz de unir esses partidos de centro-direita sem as fissuras que o nome Bolsonaro causa. “O Lula gostaria que o Flávio Bolsonaro saísse candidato, porque aí ele investe na estratégia de dividir esses partidos regionalmente, negociando apoio estado por estado”, conclui o editor.

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