Ciúmes, ressentimento, ódio, vingança. Sentimentos que, supostamente, moveram uma tragédia em Itabuna. Uma história real resumida em um corpo estendido no chão de uma lanchonete e uma moça que chora a morte precoce do namorado. Foi nesse contexto que Lucas Souza Dias, de 25 anos, "personal trainer" e professor de ginástica da Academia Brothers Fitness, no bairro de Fátima, foi executado na noite da última sexta-feira (19), quando fazia um lanche, após deixar o trabalho. Os sonhos de um belo e jovem rapaz, que saiu há quatros anos do pequeno município de Itarantim, para estudar e trabalhar em Itabuna, foram fuzilados com cinco tiros, diante dos olhos de todos, na Top Hambúrguer, próximo ao Acarajé da Bai. O acusado foi reconhecido por testemunhas e identificado, em seguida, pela polícia, como sendo Felipe Victor Borges, de 27 anos, estudante de Fisioterapia, ex-companheiro da namorada da vítima. O coordenador da 6ª Coorpin, Evy Paternostro, e o delegado Marlos Macedo, titular do Departamento de Homicídios (DH), concederam uma entrevista coletiva no final da manhã de sábado (20), para falar sobre o assunto. Para eles, não restam dúvidas quanto ao envolvimento de Felipe no caso.
Uma prova seriam as roupas usadas pelo suspeito no homicídio. Foram as mesmas vistas por populares, que o flagraram fugindo pelas ruas do bairro, momentos depois do homicídio. Ele também teria sido visto tomando açaí na mesma lanchonete, palco do assassinato. "Isso indica que já estava esperando por ele (Lucas)", arrematou dr. Marlos. Além disso, as investigações, que avançaram em poucas horas, apontaram que Felipe chegou a locar um carro na quarta-feira (17). No dia seguinte (18), renovou o contrato. "O veículo também foi reconhecido no local do crime. O que leva a crer que houve uma premeditação. Tudo foi premeditado e ele criou, inclusive, um álibi entre seus familiares, para quem disse que estava indo para Salvador. Mas foi um fato que a gente já provou. Ele não estava em Salvador, e sim em Itabuna", esclareceu o titular da DH. Em depoimento, o dono da locadora garantiu que o automóvel foi alugado de forma honesta, apresentou até o contrato de locação, cuja cópia foi anexada aos autos do processo. O professor de academia vinha sendo ameaçado. Prestou, inclusive, queixa contra o acusado na terça-feira (16) passada, três dias antes de ser morto. O delegado Marlos Macedo disse que a audiência aconteceria no próximo dia 03 de outubro. Outra queixa foi prestada pela namorada de Lucas. A jovem também vinha sofrendo ameaças, principalmente via SMS, por parte do ex-companheiro, com quem tem uma filha de três anos. Ela prestou depoimento na madrugada de sábado (20). De acordo com a garota, ela e Lucas namoravam há apenas quatro meses. Pessoas que chegaram a conhecer Felipe afirmam que ele tem uma personalidade forte e agressiva, além de ser extremamente possessivo. Já teria agredido a ex-mulher e a ex-namorada, atual do personal morto. O inquérito, que parecia já estar praticamente concluído, esbarrou no depoimento do próprio Felipe Borges, que se apresentou, por volta das 10h30min de ontem (22), na Delegacia de Homicídios, acompanhado do advogado de defesa, Antônio Rosa. Borges negou a autoria dos disparos, disse que estava em Ilhéus na noite do crime, porém admitiu as ameaças. Uma delas teria ocorrido numa ligação, onde o acusado chamava Lucas de parasita e mandava que a vítima deixasse sua família em paz. Diante da negativa e pelo fato de ter se apresentado por espontânea vontade, ele foi liberado. Contudo, isso não o isenta de continuar sendo investigado como principal suspeito. Ao Diário Bahia, o delegado Marlos Macedo lembrou que negar o crime é um direito garantido pela Constituição a qualquer acusado. "Agora teremos 30 dias para concluir o inquérito policial e enviar ao Ministério Público. Se provarmos, podemos pedir a prisão preventiva no relatório final. Ele não está obstante das investigações. Então não vamos nos precipitar no calor do clamor público", ponderou o delegado. Três testemunhas oculares estão sendo mantidas em segredo de Justiça, para não atrapalhar o andamento das averiguações. Felipe não quis dar entrevista. No entanto, o advogado dele falou sobre o caso com o repórter Osvaldo Bispo, do Balanço Geral. "Esse é o levantamento que a polícia até agora tem conduzido, tem falado, mas não existe uma prova, nem indícios suficientes de autoria até o presente momento. Inclusive, ele comparece espontaneamente a essa delegacia de polícia", argumentou Rosa, que acrescentou, ainda, não entender como ameaças as ligações e mensagens do cliente para a vítima. Numa conversa fora do ar com o apresentador Tom Ribeiro, a namorada do professor assassinado contou detalhes do último contato com o personal. Ela revelou que os dois tinham combinando de se encontrar às 22 horas daquela sexta, para irem a Ilhéus. Naquele dia, a jovem iria para a academia onde o namorado trabalhava, mas acabou desistindo porque a colega que a acompanhava não foi.O corpo do professor foi sepultado na manhã de domingo (21), no Cemitério Municipal de Itarantim, onde mora a família dele. O velório foi realizado no salão da maçonaria daquela cidade. Uma caravana com quase 30 pessoas, entre amigos e colegas de trabalho, saiu de Itabuna, para acompanhar o cortejo fúnebre. Lucas era tido como um jovem do bem, solidário e trabalhador. "Estamos todos chocados com o que aconteceu. Ele era muito querido por aqui e um exemplo. Não gostava muito de balada, nem de bebida. Era na dele", disse um colega. Uma caminhada, com saída do Jardim do Ó, às 16 horas, está prevista para esta terça-feira (23). Os manifestantes (amigos, colegas e familiares de Lucas), vestidos de branco, numa súplica por paz, sairão pela avenida do Cinquentenário, munidos de cartazes e faixas. O objetivo é chamar a atenção da Justiça para que o caso não fique impune.
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