Anoiteceu no Recife. As ruas, esvaziadas, abrigam o que a cidade não quer ver. Telma deita com as mochilas amarradas ao pescoço. Idalécio foi roubado na Praça do Derby. Tocaram fogo em todos os seus documentos. É preciso dormir. Mas o medo não deixa. Não é bem medo, é sobrevivência. Quando chove, nem é mais o medo. É o frio, o corpo molhado, o colchão encharcado, o papelão em pedaços. O ônibus passa e joga água sobre a calçada. Sai de um canto, corre para o outro. O dia foi de trabalho duro. Idalécio carrega frete na Ceasa. As costas, tem dia, parecem que vão se partir. Telma fez prova para ser cobradora de ônibus. Mas quando viram no endereço o nome de um abrigo, disseram logo: “A gente entra em contato”. Nunca entraram. É preciso dormir. Mas na rua ninguém dorme.
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