Relatório de inteligência da Polícia Federal enviado recentemente ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, revela, em detalhes, como o Comando Vermelho tornou-se uma organização criminosa internacional, com tentáculos em diferentes países e estrutura consolidada em quase todos os estados do Brasil.
O documento foi elaborado como parte da investigação sobre a infiltração do crime organizado na política do Rio de Janeiro.
O Brasil vem tentando evitar que o governo dos Estados Unidos classifique o CV e o PCC como organizações terroristas.
A PF apontou a atuação de membros do CV em quatro países: Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia.
As atividades nesses países incluem negociação de preços e rotas para o tráfico, tanto de drogas quanto de armas.
Na Colômbia, há destaque para a relação com dissidentes das FARC, principalmente na Amazônia.
“A atuação conjunta visa facilitar o transporte de drogas para o território nacional, abastecendo o mercado interno e viabilizando a exportação para outros países”, diz o documento.
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O relatório também coloca os EUA na rota do tráfico de armas. Segundo a PF, brasileiros que moram nos EUA compram peças e munição, com a justificativa de que irão utilizar em clubes de tiro e empresas de manutenção, e desviam os equipamentos.
Depois, os armamentos são montados principalmente no Paraguai e enviados ao Brasil, sem numeração ou registro.
A PF também mapeou a atuação do CV em outras regiões do Brasil, além do Rio, seja de forma direta ou em parceria com grupos locais.
“A atuação em outros estados brasileiros e em países vizinhos reforça a necessidade de cooperação entre instituições, compartilhamento de dados e ações coordenadas. O Comando Vermelho, ao estabelecer conexões fora do país, diversifica suas fontes de renda, fortalece suas rotas e amplia seu acesso a armamentos e insumos ilícitos”, diz o texto.
Veja os principais achados da PF enviados ao STF sobre o Comando Vermelho:
A relação entre o Comando Vermelho (CV) e a extinta Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) remonta ao ano de 2001, quando foi registrada a prisão de Luiz Fernando da Costa, conhecido como “Fernandinho Beira-Mar”, por forças militares colombianas.
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À época, Beira-Mar exercia a função de “matuto”, termo utilizado no meio criminoso para designar o traficante responsável pela logística de ilícitos entre fornecedores e distribuidores. A captura de Beira-Mar evidenciou a cooperação operacional entre o CV e as FARC, especialmente no que tange ao tráfico de drogas e armamentos. Atualmente, dados de inteligência apontam que o CV mantém vínculos com dissidentes das FARC, principalmente na região amazônica. Essas conexões envolvem o tráfico de cocaína, utilizando rotas fluviais e terrestres que atravessam áreas de difícil fiscalização, como a tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.
Em 2023, investigações
indicaram que grupos dissidentes da organização criminosa colombiana
estavam colaborando com facções criminosas brasileiras, incluindo o CV,
com o objetivo de controlar rotas de tráfico na Amazônia. A atuação
conjunta visa facilitar o transporte de drogas para o território
nacional, abastecendo o mercado interno e viabilizando a exportação para
outros países.
Membros da organização criminosa Comando Vermelho (CV) têm, hoje, atuação nos países Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia, que são utilizados tanto como refúgio para indivíduos foragidos da Justiça brasileira, quanto como pontos estratégicos para negociações ilícitas.
As atividades identificadas incluem:
* Negociação de preços e rotas para o tráfico drogas ilícitas e armamentos.
* Estabelecimento de conexões logísticas para o transporte de entorpecentes e armas ao território brasileiro.
* Utilização de fronteiras e vias fluviais como rotas clandestinas, especialmente na região amazônica.
O estado do Amazonas, apresenta características geográficas e sociais que o tornam estratégico para o tráfico de drogas. A densa floresta amazônica e a extensa rede de rios dificultam a fiscalização e permitem a criação de rotas clandestinas, como a chamada ‘Rota do Solimões’. Esta rota utiliza o Rio Amazonas, que atravessa Colômbia e Peru — países produtores de maconha e cocaína — e adentra o Brasil por Tabatinga/AM, seguindo até Manaus/AM. Além do transporte fluvial, há registros do uso de aeronaves de pequeno porte que operam em pistas clandestinas no interior da floresta, facilitando o envio de entorpecentes à capital amazonense.
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A tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia é historicamente associada à produção e ao comércio de drogas ilegais. A cidade peruana de Caballococha, às margens do Rio Amazonas, destaca-se pelo cultivo intensivo da folha de coca, sendo ponto de origem para o escoamento de drogas até Manaus. Informações recentes indicam que, organizações criminosas brasileiras, dominam grande parte da tríplice fronteira12 (conectando as cidades de Tabatinga, Letícia e Santa Rosa de Yavari).
Além do tráfico de drogas, o CV também está envolvido em crimes ambientais, como o financiamento da exploração ilegal de ouro, investimentos no agronegócio para lavagem de dinheiro, grilagem de terras e contrabando de madeira e minérios. A interdependência entre o narcotráfico e os crimes ambientais na Amazônia dificulta a delimitação precisa da atuação do crime organizado na região, exigindo ações integradas de inteligência e fiscalização para conter o avanço dessas atividades ilícitas.
A facção tem adotado também um modus operandi estruturado para o tráfico internacional de armas e drogas, utilizando uma logística integrada que aproveita as mesmas rotas e conexões para o transporte de ambos os ilícitos. As investigações indicam que o armamento é adquirido por meio de brasileiros residentes nos Estados Unidos, que compram peças e munições sob a justificativa de uso por clubes de tiro e empresas de manutenção. Também há registros de negociações diretas com fornecedores no Paraguai, com transporte terrestre para o Brasil, além de operações realizadas por contrabandistas no Suriname, que utilizam embarcações de pesca oriundas do Pará para o envio de armas e entorpecentes.
O comércio de armas de fogo promovido pelo CV na América do Sul caracteriza-se pelo tráfico em pequenas quantidades, informalmente denominado “conta-gotas” ou “formiguinha”.
As armas, muitas vezes desmontadas, entram no país em partes, dificultando a fiscalização. Dados levantados apontam um crescimento expressivo nas apreensões de fuzis: aumento de 28,6% em 2022 em relação a 2021; 32,9% em 2023 comparado a 2022; crescimento de 12,8% em 2024 em relação a 2023; e, até o momento, há registro da apreensão de 1396 fuzis no Brasil em 2025. Cerca de 37% das apreensões ocorreram no RJ, liderando o ranking nacional. Grande parte dos fuzis apreendidos apresenta indícios de montagem no Paraguai, a partir de peças avulsas que replicam modelos da fabricante americana Colt. O tráfico inclui tanto armas finalizadas quanto componentes suficientes para a montagem de fuzis na plataforma AR.
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Esses materiais chegam ao Paraguai por meio de carregamentos aéreos ou marítimos oriundos da Ásia e dos Estados Unidos, sendo montados por armeiros locais com conhecimento técnico. Após a montagem, os armamentos são enviados ao Brasil, sem numeração ou identificação, o que impossibilita o rastreamento e favorece o abastecimento de grupos criminosos.
Há indícios de que o Comando Vermelho utiliza rotas marítimas para o tráfico de armas, especialmente por meio da Baía de Guanabara e do Porto de Sepetiba, no estado do Rio de Janeiro. As armas seriam descarregadas de navios e transferidas para pequenas embarcações, como lanchas e barcos, que seguem até comunidades dominadas pela facção, como o Complexo da Maré, em Bonsucesso, e o Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. A Baía de Guanabara, com cerca de 384 km², apresenta baixa fiscalização e reduzido efetivo policial, o que facilita a atuação clandestina de grupos criminosos. Além dessas rotas, há suspeitas de que os portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR) também sejam utilizados como alternativas para o envio de armamentos ao território fluminense.
Em 1º de junho de 2017, foram apreendidos 60 fuzis no Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão), no Rio de Janeiro/RJ, provenientes de Miami, nos Estados Unidos, em uma das operações mais relevantes envolvendo tráfico internacional de armas por via aérea. O responsável pelo carregamento foi Frederik Barbieri, apontado como o maior traficante de armas do país, posteriormente condenado em 19 de julho de 2018 pelo tribunal federal de Miami a 12 anos e oito meses de prisão, além do confisco de U$ 9,6 milhões. Investigações também indicam que a facção vem utilizando aeronaves particulares de pequeno porte para o transporte de armas e entorpecentes entre países vizinhos, conforme demonstrado em apreensões recentes em diversos estados brasileiros.
Recentemente, decorrente de operação da Polícia Federal, uma fábrica clandestina de fuzis foi descoberta em Santa Bárbara d’Oeste, interior de São Paulo, operando sob a fachada de uma empresa de peças aeronáuticas chamada KONDOR FLY PARTS.
Em fevereiro de 2025 houve a condenação de traficante Português com vínculos com o Comando Vermelho, inclusive com o homicídio de um brasileiro, em Portugal, por determinação de lideranças da facção.
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Relação com outras organizações criminosas e com o PCC.
Região Norte
No Acre, Amapá, Pará, Rondônia e Tocantins, o CV atua diretamente e tem presença consolidada, mas se vale pontualmente de alianças com pequenas facções locais.
No Amazonas e Roraima, o CV tem como aliado a FDN (FAMÍLIA DO NORTE), em uma aliança estratégica contra o PCC.
Região Nordeste
Em Alagoas, Pernambuco, Piauí e Sergipe, o CV
encontra-se em expansão, atuando diretamente, sem alianças fixas
formadas com facções menores locais. Apenas alianças pontuais.
Na Bahia, o CV absorveu a facção Comando da Paz, após aliança formada em 2020. Atualmente os confrontos mais frequentes no estado são contra o BDM (Bonde do Maluco), aliado do PCC.
No Ceará o CV está atualmente em guerra de expansão em confronto direto com o ex-aliado GDE (Guardiões do Estado), que rompeu a aliança e se vinculou ao TCP.
No Maranhão o CV formou aliança consolidada com o Bonde dos 40 e mantém a prevalência no domínio do estado.
Na Paraíba o CV mantém aliança com uma dissidência da facção OKAIDA, materializada na figura do criminoso de vulgo Fatoka (Flávio de Lima Monteiro), líder da Tropa do Amigão e que dados de inteligência indicam que provavelmente se encontra escondido em comunidades controladas pelo CV no RJ.
No Rio Grande do Norte, o CV mantinha aliança com o SDC (Sindicato do Crime), que foi rompida, com esta última passando a cerrar fileiras com o PCC. No entanto, O CMD 84 (Comando 84) — uma dissidência do SDC — foi formada e passou a dar apoio ao CV no estado.
Região Centro-Oeste
No estado de Goiás, o CV encontra-se em expansão com confrontos em determinadas regiões, mas com domínio de Goiânia.
Já no Mato Grosso, o CV responde por cerca de 95% do estado, com pleno domínio sobre o PCC.
No Mato Grosso do Sul a presença do CV é inexpressiva e no Distrito Federal, a facção não conseguiu a expansão pretendida, tendo seus esforços tolhidos pelas forças de segurança, pelo PCC e pelo CDC (Comboio do Cão).
Região Sudeste
No Espírito Santo, o CV formou aliança com a facção Tropa do França.
Já nos estados de Minas Gerais e São Paulo, não há presença expressiva da facção.
Região Sul
Em Santa Catarina, o CV conta com o PGC (PRIMEIRO
GRUPO CATARINENSE) como aliado, e dessa forma mantém a liderança
consolidada no controle do estado.
Já nos estados do Paraná e Rio Grande do Sul, a presença do CV é inexpressiva.
Relação com o PCC
O acordo entre o CV e o PCC teve início em janeiro de 2025, com um
“salve” conjunto divulgado em fevereiro, formalizando uma trégua
nacional. Os termos incluíam a redução de homicídios entre as facções
para evitar prejuízos aos negócios, além da possibilidade de uma pressão
coordenada sobre o governo para flexibilizar regras do Sistema
Penitenciário Federal, como visitas íntimas e menor isolamento de
líderes. Também havia um pacto para unir esforços jurídicos e manter a
paz, evitando mortes “por banalidade” e preservando vidas inocentes.
O acordo foi rompido em fins de abril de 2025, após circulares das duas facções declararem o fim da aliança. Os principais motivos do rompimento foram conflitos regionais que persistiram durante a trégua, interesses territoriais divergentes e rixas históricas. Particularmente a falta de apoio interno — dados de inteligência indicam que Marcinho VP nunca aprovou a trégua — o que tornou a paz insustentável. Em alguns estados, como Santa Catarina, o rompimento resultou em declarações de “guerra aberta” contra o PCC, intensificando a violência e a disputa por rotas estratégicas do tráfico.
As análises apresentadas ao longo deste relatório evidenciam que o Comando Vermelho permanece como uma das organizações criminosas mais estruturadas e resilientes do país. Sua capacidade de adaptação, somada ao profundo enraizamento social em diversas comunidades, demonstra que o enfrentamento à facção exige mais do que ações pontuais: requer políticas integradas, consistentes e sustentadas a longo prazo. A complexidade de suas operações confirma que o grupo atua muito além do tráfico de drogas, consolidando-se como um ator criminoso multifacetado.
A expansão territorial da facção, aliada à sua crescente internacionalização, amplia o desafio para as forças de segurança e inteligência. A atuação em outros estados brasileiros e em países vizinhos reforça a necessidade de cooperação entre instituições, compartilhamento de dados e ações coordenadas. O Comando Vermelho, ao estabelecer conexões fora do país, diversifica suas fontes de renda, fortalece suas rotas e amplia seu acesso a armamentos e insumos ilícitos.
Por outro lado, a sofisticada estrutura de lavagem de dinheiro identificada ao longo desta Informação demonstra que o CV domina mecanismos cada vez mais discretos, com uso crescente de empresas de fachada, atividades comerciais aparentemente lícitas e circulação financeira pulverizada. Esse cenário reforça a importância de investigações patrimoniais robustas e integração entre órgãos de controle. Enfrentar a facção no campo financeiro é estratégico para enfraquecer sua capacidade de reinvestir em suas operações.
Também se observa que a facção mantém uma lógica organizacional baseada em redes, permitindo descentralização operacional sem perda de comando. Mesmo com prisões de lideranças e operações de grande impacto, a estrutura permanece funcional devido à reposição ágil de quadros e ao fortalecimento de conexões horizontais. Esse modelo exige das forças estatais novas abordagens investigativas, capazes de compreender e antecipar fluxos de coordenação dentro da facção.
Por fim, as informações aqui reunidas reforçam que o combate ao Comando Vermelho precisa combinar repressão qualificada, inteligência ativa, cooperação institucional e políticas públicas voltadas à redução das vulnerabilidades sociais exploradas pela facção. As dinâmicas criminais apresentadas demonstram que o enfrentamento bem-sucedido depende de visão estratégica, continuidade administrativa e resposta integrada.
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