O dólar teve forte queda de 1,38% nesta terça-feira (27) e fechou cotado a R$ 5,206 —menor valor desde 28 de maio de 2024, quando chegou a R$ 5,160, em um dia em que investidores venderam a moeda americana de forma acentuada globalmente.O índice DXY, que o compara a moeda uma cesta de outras seis divisas fortes, caiu 1,3%, indo ao menor patamar em quatro anos.
O recuo ocorre em meio às preocupações de investidores com a condução das políticas monetária, fiscal, de comércio exterior e de relações internacionais do governo americano Donald Trump. O euro subiu 1,4%, a US$ 1,20, enquanto a libra esterlina subiu 1,2%, a US$ 1,38, maiores valores desde 2021. O fluxo de recursos do exterior também beneficiou a Bolsa brasileira.
O presidente dos EUA disse nesta terça, em evento no Iowa, que acha que o valor do dólar "está ótimo". "Veja o valor do dólar, os negócios que estamos fazendo. O dólar está indo muito bem", disse Trump.
Num dia em que investidores buscaram um porto-seguro, a prata subiu mais 8%, ao recorde de US$ 112; o ouro, 3,5%, a US$ 5.185; e o petróleo, 3%, a US$ 66,50. O bitcoin tambem teve alta de 1%, cotado a cerca de US$ 89 mil.
"A força do ouro e a fraqueza do dólar refletem sérias dúvidas sobre a formulação de políticas caóticas e improvisadas de Trump", disse Trevor Greetham, chefe de investimento da Royal London Asset Management, citando as recentes críticas contra o Canadá e a Coreia do Sul.
O dólar deve manter a tendência de desvalorização ao longo de 2026. Os analistas do JPMorgan disseram que "os motivos para continuar pessimista em relação ao dólar continuam intactos".
BOLSA BRASILEIRA
As ações de companhias brasileiras também tiraram proveito da fuga do dólar. A Bolsa fechou em disparada de 1,78%, a 181.919 pontos. Trata-se de um novo recorde histórico para o Ibovespa, que bateu 181 mil, 182 mil e 183 mil pontos pela primeira vez neste pregão. No pico do dia, chegou a 183.359 pontos.
Em meio ao movimento de rotação de investidores estrangeiros para fora das praças norte-americanas, mais de R$ 17,7 bilhões já foram aportados no país do início de janeiro até sexta-feira (23), segundo a B3. Isso representa mais de 60% de todo o volume alocado por essa categoria no último ano.
A leitura do IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) de janeiro, que veio ligeiramente abaixo do esperado, também ajudou os ativos domésticos. O avanço foi de 0,2% na base mensal, ante expectativa de 0,22%, segundo a Bloomberg.
A divulgação acontece na véspera da primeira decisão de juros do Copom (Comitê de Política Monetária) em 2026, em data conhecida como "superquarta" pelos mercados por também trazer a decisão de juros do Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano).
A previsão dos agentes é de manutenção dos atuais 15% ao ano, maior patamar em quase duas décadas. O IPCA-15, porém, abriu portas para que o colegiado afrouxe a linguagem e indique o início do ciclo de cortes para a próxima reunião, em março.
"Para a decisão de amanhã, o resultado de hoje é de pouca relevância", diz André Valério, economista sênior do Inter. "Mas esperamos que o comitê faça ajustes no comunicado para refletir a possibilidade do início do ciclo de cortes na reunião de março."
A leitura leva em conta, também, a tendência de desinflação no longo prazo, resultado da valorização do real ante o dólar e da queda recente nos preços de alimentos. A redução dos preços da gasolina pela Petrobras também deve empurrar o índice para baixo neste primeiro trimestre, afirma Valério.
Segundo o boletim Focus desta semana, especialistas veem um corte de 0,5 ponto percentual em março como o pontapé inicial do ciclo de afrouxamento monetário. A Selic deve encerrar 2026 em 12,25%; o IPCA, em 4%.
"O dado aumentou a confiança de que a política monetária restritiva está produzindo efeitos mais consistentes sobre os preços. Com a inflação mostrando sinais de arrefecimento, cresce a expectativa por um corte de juros mais próximo, ou ao menos por um discurso mais brando por parte do BC", diz João Abdouni, analista da Levante Inside Corp.
Para a Bolsa, juros mais baixos tendem a ser uma boa notícia: ao tirar um pouco do brio da renda fixa, o corte estimula que investidores procurem retornos mais altos em ativos de risco. Segundo a XP, os últimos oito ciclos recentes de afrouxamento monetário levaram o Ibovespa a subir 39,2%.
O mercado ainda vê espaço para a Bolsa continuar subindo ao longo do ano, mesmo com previsão de volatilidade por causa das eleições presidenciais de outubro.
"A queda do dólar hoje é uma combinação de maior apetite a risco no exterior e uma rotação global fora dos EUA. O Ibovespa está subindo mais de 2%, o que aponta para muito capital entrando no país", afirma João Duarte, especialista em câmbio da One Investimentos.
O ambiente de tensão também cerca a decisão de juros do Fed nesta "superquarta". Por lá, o consenso de mercado também aponta para uma manutenção da taxa na banda de 3,5% e 3,75%, mas os ataques de Trump à independência do banco central preocupam analistas.
Caso a manutenção dos juros se concretize, a decisão do Fed vai na contramão do que o republicano tem pregado desde que assumiu o cargo: a redução brusca da taxa para 1,5%.
"Embora haja pouca dúvida sobre o resultado da reunião, têm aumentado as expectativas de que a retórica será agressiva devido a fortes dados econômicos e em resposta aos ataques de Trump à autonomia do Fed", diz Matthew Ryan, chefe de estratégia de mercado da Ebury.
Conforme a escolha pelo novo presidente do Fed se avizinha —o mandato de Powell termina em maio—, o mercado teme que Trump opte por um chairman que responderá às suas demandas, e não aos dados econômicos.
Fonte: Folha de São Paulo
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